Guanabara: pescadores já tiraram 3 mil toneladas de lixo
Uma tonelada e meia em um único ponto de coleta. Foi o que saiu da Praia do Remanso, em Magé, na Baía de Guanabara,…

Uma tonelada e meia em um único ponto de coleta. Foi o que saiu da Praia do Remanso, em Magé, na Baía de Guanabara, em uma ação de limpeza de manguezal no fim de outubro. O dado que muda a escala, porém, está no parágrafo seguinte da matéria: o projeto afirma ter retirado cerca de 3 mil toneladas de rios, praias e manguezais desde janeiro de 2022.

Quem está limpando
Não é mutirão de fim de semana com camiseta. É a Federação de Pescadores do Estado do Rio de Janeiro (Feperj), com as colônias de pescadores, no projeto Águas da Guanabara. Na ação do Remanso, pescadores artesanais trabalharam ao lado de alunos do curso de Agente de Resíduos Sólidos da Faetec.
Os estudantes formaram corrente humana para levar os sacos até a triagem e acompanharam o trabalho de uma catadora parceira do projeto na separação dos recicláveis. Parte do material estava presa às raízes do mangue.
Por que manguezal acumula tanto
Praia devolve. Mangue guarda. A raiz aérea do mangue funciona como pente: o resíduo que passa boiando no canal fica preso ali, e a maré seguinte cobre de sedimento. Em poucos ciclos, a garrafa PET está enterrada até o gargalo, sob uma camada de lama que ninguém vê da margem.
É por isso que a conta do manguezal nunca fecha rápido. Cada tonelada exige desenterrar, separar do sedimento e transportar por acesso ruim — não dá para chegar de caminhão.
O que isso tem a ver com a pesca
Magé concentra o maior número de pescadores e embarcações do projeto. Não é coincidência. Manguezal é berçário: camarão, caranguejo e peixe juvenil dependem daquele emaranhado de raiz. Resíduo acumulado ali reduz área de berçário, e quem sente primeiro é quem vive da pesca artesanal na mesma baía.
Quando a colônia de pescadores organiza limpeza, ela está limpando o próprio estoque de trabalho. Isso muda o desenho do programa: não é caridade ambiental, é manutenção de ativo.
Três diferenças em relação ao mutirão pontual
- Continuidade. Quatro pontos de coleta fixos na mesma praia, e não um evento por ano. O resíduo é recolhido antes de virar sedimento.
- Renda na comunidade. Pescador e catadora participam do processo, inclusive da triagem do reciclável. O material tem destino, não só destino “adequado” no papel.
- Formação. Aluno de curso técnico entra em campo e vê o ciclo inteiro. Isso forma gente que vai trabalhar com resíduo pelo resto da vida.
O limite do modelo
Três mil toneladas em quatro anos é muito resíduo removido e, ao mesmo tempo, um retrato ruim: significa que a entrada continua. Enquanto o rio traz, a limpeza é enxugamento contínuo. O programa trata o sintoma com competência — e é justo dizer isso — mas a conta só fecha quando a coleta e o saneamento da bacia melhorarem.
Para quem acompanha daqui do Ceará, a lição é de desenho de projeto: pagar quem conhece o território, manter pontos fixos em vez de evento anual e medir por categoria. Custa menos que balsa de mutirão e dura mais.
Perguntas frequentes
Quanto o projeto já retirou da Guanabara?
Cerca de 3 mil toneladas de resíduos de rios, praias e manguezais desde janeiro de 2022, segundo o próprio Águas da Guanabara.
Por que limpar manguezal é mais caro que limpar praia?
Porque o resíduo está preso às raízes e enterrado no sedimento, e o acesso é ruim. Exige separar do lodo e transportar sem veículo pesado.
Quem participa desse tipo de ação?
Pescadores artesanais das colônias, catadores parceiros, estudantes de cursos técnicos e equipes das prefeituras envolvidas.
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Fontes consultadas
- arquivo original commons.wikimedia.org
- Agenda do Poder — “Pescadores retiram quase 1,5 tonelada de lixo de manguezal na Baí agendadopoder.com.br
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